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Diário Medicina Preventiva

Uma intensa viagem pelo dia-a-dia de uma estudante de Medicina e, além disso, algumas indicações sobre a importância da prevenção para preservarmos a nossa saúde.

Diário Medicina Preventiva

Uma intensa viagem pelo dia-a-dia de uma estudante de Medicina e, além disso, algumas indicações sobre a importância da prevenção para preservarmos a nossa saúde.

08.Abr.07

FRIDA - A VIDA PELA ARTE

 

"Frida" - O FILME

 

Frida Kahlo é uma rapariga rebelde e claramente azarada.  Num determinado dia, perante a necessidade de usar como meio de transporte o autocarro e optando por não esperar pelo próximo, corre a apanhar aquele que acaba de partir. Segue neste e, de repente, ocorre um acidente e o autocarro vai de encontro à esquina de um edifício.

Do acidente resultam inúmeras lesões no corpo de Frida. Naquele momento, Frida torna-se arte, a sua própria arte. E foi por pouco que ela se salvou. Ficou com a coluna vertebral partida, tal como a clavícula, duas costelas e a pélvis, partida em 3 locais. Atravessou-a, no acidente, uma vara de metal que a penetrou pelo lado direito do corpo e tendo saído pela vagina. Sofreu 11 fracturas na perna direita e o pé esmagado.

 

 

 

Uma vez garantida a sua sobrevivência, é tentado que ela volte a andar.

O processo é longo e demorado e resulta em sucessivos fracassos. Frida está constantemente deitada e tem o corpo envolto em gesso. Obviamente, que durante o processo de a envolverem em gesso, o seu corpo tem de estar suspenso e preso de alguma forma, uma vez que a sua estrutura não é auto-suficiente. O pai oferece-lhe um cavalete próprio para ela pintar mesmo na cama, numa tentativa de consolar o seu enorme sofrimento e fazê-la esquecer as horríveis dores que tem.

 

"Existe luz. A loucura não existe. Somos os mesmos que já fomos e seremos. Não contando com o estúpido destino.”

Frida

 

Ao fim de muito tempo, Frida, graças à sua enorme força de vontade, consegue largar a cama e passar para uma cadeira de rodas. Mais tarde, conseguirá mesmo levantar-se e andar, primeiro com o apoio de uma bengala, depois pelo seu próprio pé.

Tenta vender os quadros que pinta, numa tentativa de ganhar a vida e ajudar os pais.

Acaba por casar com um famoso pintor de murais, Diego Rivera, e por engravidar deste, o que a deixa radiante. Claro que tendo em conta a fragilidade da sua estrutura óssea após o acidente, é uma gravidez de risco e Frida acaba mesmo por ter um aborto involuntário. Todas as desgraças com que a vida a bombardeia acabam por inspirá-la na sua obra. Os seus quadros vão reflectindo o seu sofrimento, incluindo agora também o tema do aborto.

 

 

 

Passeia com o marido, saindo do México, para a América. O marido continuamente infiel, acaba mesmo por trair Frida com a própria irmã, a quem ela era muito ligada. Frida fica de rastos.

 

"Na minha vida tive dois grandes acidentes: o autocarro e meu casamento com Diego. Diego foi o que mais doeu.”

Frida

 

 

 

 

Entretanto Frida acaba por defender a causa comunista, por influência do marido. Perdoa a irmã pela traição, tendo em conta a força dos laços que as unem. A irmã e o amor que sente por ela, é um dos temas frequentes nas suas obras. Frida acaba por trair também o marido com Trotski e estabelece ainda casos com mulheres.

Anos mais tarde começa a ocorrer o processo inverso. Volta a regredir a saúde de Frida, piora o seu estado. Vai ao médico, voltando a necessitar de uma estrutura metálica que lhe garanta o suporte da coluna, novamente mais fragilizada. O médico apercebe-se também do péssimo estado dos seus pés gangrenosos. Terá de os amputar. 

 

"Quem precisa de pés quando se têm asas?"

Frida

 

 

O estado de Frida continua a piorar. Cada vez se aguenta menos em pé, passa todo o tempo deitada. Além disso, está muito perto de ter uma pneumonia. O médico proíbe-a de deixar a cama, apesar de saber o quão importante é a sua primeira exposição no próprio país. Frida, que apesar da doença e dos azares da vida, mantinha o seu espírito determinado, consegue que a levem à exposição, sem desrespeitar a ordem médica, vai na sua cama.

Tem consciência de que não durará muito mais e oferece ao marido um presente dos seus 25 anos de casados, uma semana antes da data. E acaba mesmo por morrer, tal como previa, aos 47 anos.

 

“Espero que a saída seja alegre. E espero nunca mais voltar.”

 Frida

 

 

 

FRIDA –  a realidade  (1907-1954)

 

O filme, entretanto, exalta alguns mitos que podem tombar com as revelações ao longo das páginas do seu diário. Por mais que se tente humanizar o seu esposo e adorado Diego Rivera, interpretado por Alfred Molina, sabe-se que a história não é bem assim. Kahlo amava Rivera como homem e filho, que nunca teve, e colocou esse sentimento em tinta nas telas e nas páginas pálidas do seu íntimo "cada momento, ele é meu filho, meu filho nascido a cada instante, a cada dia, de mim mesmo."; o sentimento, todavia, não era recíproco. Apesar de ser leal a Frida e com ela ficar até a morte, Rivera nunca foi a figura carinhosa e bonacheirona que o filme pinta. Rivera traiu a pintora diversas vezes, inclusive com a própria irmã de Frida, Cristina, e com Maria Félix, com quem manteve um caso de domínio público, enquanto Frida permanecia na sua cadeira de rodas após amputar a perna direita.

A pintora, não obstante, estava ciente da personalidade evasiva de Rivera. Dele se separou em 1939, voltando a casar-se em Maio de 1940. O filme dialoga com esse momento e reproduz confissões do diário de Frida:

"melhor amá-lo pelo que ele é do que amá-lo pelo que ele não é. Gostaria de pintar-te, mas não há cores, por haver tantas, em minha confusão, a forma concreta de meu grande amor."

Frida, antes de tudo, sabia sentir. Virgínia Woolf mencionava que "a dor é irreproduzível", mas a pintora derrubou esse mito. Frida conhecia a dor, mas, também, a alegria, conforme os seus quadros atestam.

Para ela, os dois sentimentos não eram algo distintos, mas complementares. Aos 7 anos, a sua perna ficou para sempre coxa, facto derivado da poliomielite. Onze anos depois, num acidente de trânsito, o corrimão do autocarro atravessa-lhe o corpo. O corpo banhado em sangue e pó de ouro, que um pintor carregava na hora do acidente, cobriu-lhe a face. Frida ficou entre a vida e a morte. O seu sonho de estudar Medicina acabou naquele momento. Ao acordar do coma, Frida descobre que fora abandonada pelo namorado, cuja família não aprovava o namoro pela diferença de classes, com 70% do corpo mergulhado em gesso e com a alma dilapidada. Meses em coma, 4 abortos e mais de 35 cirurgias para costurar o esqueleto — figura constante em seus quadros. Saldo negativo? Não, Frida abraçou ainda mais a vida

O filme é fiel ao renascimento de Frida. Com o apoio de uma bengala, começou a pintar e fez dessa arte a sua vida. No caso da pintora, a vida imitou a arte. Casou-se com Rivera e abraçou a causa comunista. Com as constantes traições do marido, ela começou também a manter casos extraconjugais, entre eles com Trotski, o escultor Noguchi, contando, também, com alguns casos homossexuais, cujas parceiras, grande parte amantes de seu marido, a consideravam ainda melhor do que Diego Rivera.

Se a proposta era exibir Frida e pedaços de sua vida, que não podem ser costurados com uma linha e ponto simples, Salma Hayek acertou na mosca. Faltou, porém, contar que a verdadeira Frida apanhou inúmeras vezes de Rivera, se embebedava constantemente às voltas com a sua tristeza e, quando já não podia mais andar, frequentemente era visitada pela ideia do suicídio.

O filme, que visualmente é bonito, parece que preteriu a dor de Frida pela estética do perfeito, tanto que ganhou o Óscar de 2003 pela maquilhagem. Frida está além e não pode ser percebida com a visão exclusivista de um director. Quando as luzes se acenderem e cada espectador voltar para casa, sozinho ou acompanhado, tranquilamente levará, consigo, a certeza de que Frida não pode ser resumida em 140 minutos de projecção. Afinal, "quem precisa de pés quando se têm asas?" E Frida fecha o seu diário para cair na graça do público e imortalizar a sua dolorida, mas revolucionária arte.

 

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